Uma vez fechei um grande negócio por causa de uma criança.
Não era ela quem estava no vídeo. Era o pai, um banqueiro famoso. A conversa seguia naquele ritmo educado, que ainda não decidiam nada, quando a filha dele apareceu. E ele fez uma coisa que quase ninguém faz numa reunião: interrompeu o call. Abaixou, ouviu, respondeu no ouvido dela. Por alguns segundos, as pessoas foram deixadas de lado. Em seguida, pediu desculpas e voltou naturalmente.
E eu nunca fui tão bem convencido.
Tenho uma mania que não sei se é virtude ou desconfiança. Enquanto alguém tenta me impressionar, eu tento olhar para o lado. Para o garçom que errou o pedido. Para a atendente que demorou. Para o manobrista. Para aqueles que a maioria de nós aprendeu, com esforço, a não enxergar. As pessoas na verdade são, o reflexo do que elas fazem em volta.
Não chamo isso de intuição, eu chamo de memória.
É ali que a pessoa aparece. Não no pitch, não no aperto de mão, não no cartão de visitas (que morreu, graças a deus).
Ser encantado por um banqueiro, é fácil.
Existe um tipo de gente que distribui gentileza como quem aloca capital: calcula o retorno antes de sorrir. Para cima, tapete vermelho. Para baixo, silêncio ou impaciência. Chamam isso de saber se posicionar.
Networking…tsc

Sobre M&As, acordos de guerra e contratar pessoas
Contratos existem para o momento em que o caráter falha. São úteis, mas chegam tarde. Uma due diligence revela o balanço de uma empresa; não revela como o dono fala com a moça do caixa. E, no longo prazo, a segunda informação costuma sair mais cara.
Quer conhecer uma pessoa, de verdade? Analise como ela trata as pessoas desconhecidas à sua volta. O vilão se revela em pequenos detalhes e muitas vezes, deixamos passar. “A pessoa está num dia ruim, acho que eu tô vendo coisa”…muitas vezes deixamos passar pequenos sinais.
Não tenho a ilusão de acertar sempre. Tem gente que atravessa um dia ruim na nossa frente e paga por nossos julgamentos. Tem outras que atuam bem o bastante para me enganar. Mas atuar cansa, e ninguém sustenta um personagem com todo mundo, o tempo inteiro.
Entre os “psicopatas de entrevista” (e de LinkedIn), os “supers em tudo”, eu tendo sempre a preferir os humildes. O David Vélez, foi um dos empreendedores mais humildes que conheci pessoalmente, só por isso, eu trabalharia no Nubank.
O incômodo dessa minha mini mania é que ela não tem mão única. Se eu fico reparando em como os outros tratam o garçom, alguém certamente está reparando em como eu trato. E eu nem sempre passaria no teste.
Talvez seja por isso que eu presto essa atenção. Não só para escolher com quem fazer negócio, mas para lembrar quem eu quero ser quando não houver ninguém importante olhando.
Como negar uma pessoa que trata bem os filhos? Putz…
Já o garçom… está sempre olhando.
Oferecimento dessa news:


