Essa história que escrevo aqui começa por uma garrafa.
Um vinho da Guaspari, de Espírito Santo do Pinhal, interior de São Paulo. Conhecer essa vinícola e os vinhos que ela produz, mudou a forma como enxergo esse mercado por aqui.
Acabei me apaixonando pela “Pinhal dos Vinhos”, por conta dos irmãos Lourenço (Felipe, Guilherme e Juliano), empreendedores que estão a frente do Rancho Churrascada e que me levaram para ver de perto o que estava acontecendo ali. Foi como chegar pela porta certa. Depois disso, visitei vinhedos, os cafezais com o Fernando Franceschilli (Alto dos Pinhais), vi o solo de perto, conheci a cultura do lugar e ouvi as histórias de quem construiu essa cidade. Voltei de lá com uma ideia atravessada que não me largou mais.
Eu precisava ficar ali e convenci meu amigo Paulo Silveira, a comprar comigo, uma fazenda de café desativada.
Cheguei pelo vinho, fiquei pelo café.
Um “interlúdio” do Michael Burry sobre comprar vinhos como investimento
Em setembro agora, Michael Burry (o cara que previu a crise do subprime de 2008) publicou no Substack dele uma tese de investimento em vinho.
A tese é simples, comprar os melhores vinhos franceses, italianos, espanhóis e portugueses agora, é uma oportunidade de ter por um preço irreal, vinhos que vão se valorizar muito no longo prazo. Ainda assim, dar a oportunidade beber parte do estoque, “de graça”.
“Beber vinhos icônicos de graça pelo resto da vida?”
O argumento dele é que os preços dos melhores Bordeauxs, Brunellos e Borgonhas caíram entre 25% e 30% de preço nos últimos 2 anos. A maior queda de preço da história, para os vinhos de maior renome. Ele reforça que: “uma caixa de vinhos parada num armazém alfandegado de Londres é um ativo físico fora do sistema digital, uma posição vendida no dólar e uma proteção contra a fragilidade financeira que a IA e computação quântica podem provocar”. A parte prática é: comprar abaixo do preço de tela e tratar o desconto capturado como lucro realizado na hora da compra.
Arbitragem pura. Igual comprar ações, criptomoedas e imóveis, só que fora do sistema digital.
O vinho brasileiro não tem cotação, não tem mercado secundário, não tem preço de tela. O que ele tem é preconceito, especialmente dos brasileiros.
Tenho um amigo que gasta R$15 mil por mês em vinho. Nordestino, veio para São Paulo há 50 anos, sem praticamente perspectiva. Venceu financeiramente. Ele, não comprava vinhos brasileiros. Até essa última sexta feira.
Vinhos de inverno: uma tecnologia brasileira!
O problema histórico da produção do vinho brasileiro sempre foi muita chuva na hora da colheita. A dupla poda resolve isso, invertendo o ciclo da videira, para que a uva fique boa no inverno seco, com dias de sol e noites frias. A técnica foi desenvolvida pelo agrônomo Murillo Albuquerque Regina e validada pela Epamig ao longo de duas décadas, a partir de um vinhedo experimental plantado em 2003, em Caldas (MG). A Syrah foi a uva que melhor respondeu, e é hoje a mais plantada para esses vinhos. Essa uva foi trazida da França.
Espírito Santo do Pinhal, Sto Antônio do Jardim e as mineiras Jacutinga, Albertina, Andradas, e outras, foram uma das diversas cidades “acompanhadas” pela Epamig no estudo da Syrah em vinhedos comerciais.
Inclusive o próprio Murillo, ajudou a Guaspari no início. Essa região é hoje o epicentro dos vinhos de qualidade no Brasil.
Alguns marcos de lá:
Em 2017, a Guaspari levou ouro no Decanter com um Syrah e isso mudou tudo. Em 2021, levou medalha de prata no Syrah du Monde;
A Casa Geraldo (Andradas-MG) levou dois dos quatro ouros brasileiros no Decanter World Wine Awards 2026;
O Paralelas Cabernet Franc 2024, da Casa Almeida Barreto, também de Pinhal, foi eleito o melhor tinto do Brasil e entrou na seleção sul-americana do Descorchados;
Os prêmios dessa região já chegam a casa de centenas. E, existem espumantes brasileiros feitos no sul do país, muito melhores que os feitos na região de Champanhe (França).
Chegou a hora de virar esse jogo.
O projeto Ímpar e o que a gente fez
Quando digo a gente, eu friso “eu e minha esposa Vanessa”.
Não construímos vinícola nenhuma. Fizemos uma parceria com a L’ Origine, de Santo Antônio do Jardim (SP), que faz nossos vinhos preferidos. Separamos um lote de uva de um vinhedo específico e decidimos lançar um vinho próprio. Não uma produção inteira: uma parcela. Exclusiva.
O vinho da L’ Origine sempre foi excepcional. Nosso mérito é pífio. O que fizemos: escolher, nomear e assinar. Dar àquele lote exclusivo e selecionado por nós, uma identidade própria.
Um lote só, pequeno e sem repetição.
Chamamos o vinho de Ímpar (aqui o site do projeto).
Falta muita convicção ao tratar vinho brasileiro com o mesmo cuidado com que tratamos um rótulo europeu que nunca vimos na vida, só porque o rótulo está em francês ou outra língua.
Já fizemos essa “virada de chave” com queijo e azeite. Brasileiros já não torcem o nariz ao sentarem na mesa e perceberem esses produtos brasileiros.
Chegou a hora do vinho brasileiro.
O primeiro lote do Ímpar foi para amigos próximos e família. Mas tem uma coisa que ficou clara e que eu não esperava: as pessoas queriam participar…sem nem ao menos termos uma preparação.
Vendemos 100 garrafas em praticamente 8 horas. Cerca de 50 pessoas entraram numa lista de espera… e estou tentando pensar como acomodar essa galera.
Próximos passos
O Ímpar vai continuar. Ainda não sei exatamente em que formato, e prefiro admitir isso a inventar um plano de cinco anos nesse texto aqui.
Talvez eu possa selecionar lotes pequenos, dizer de onde a uva veio, dar visibilidade a quem fez e resistir à tentação de crescer mais rápido do que a qualidade do Ímpar permite.
O Tadashi e a Estela (L’Origine), produtores desse vinho, são pessoas especiais e quase paranóicos com a qualidade da uva e da terra. Nunca tinha visto um produtor brasileiro com tanta foco em produzir algo realmente único.
Vinhos brasileiros como investimento.
E o Burry que compra vinho como reserva de valor físico, num mundo de ativos digitais frágeis? Parece estar certo.
O Ímpar não é nada disso. Não é ativo, não protege ninguém de inflação, mas se propõe a ser algo para acompanhar a felicidade das pessoas. Eu gostaria de sentar em cada mesa desses primeiros compradores e ver a cara de cada um, tomando a primeira taça.
Vou confessar outra coisa, eu queria na verdade é… enviar uma mensagem para esses primeiros compradores e oferecer o pagamento de R$2,000 na garrafa Syrah 2025 do Ímpar, daqui 5 anos, em 2031.
Mas não devo.
O próximo lote
A segunda parcela ainda não tem data nem tamanho. Quem quiser ser avisado antes de a lista abrir: impar.vip.
Você pode se interessar
Espírito Santo do Pinhal, a sucursal da Faria Lima.
Artigo do Michael Burry: “Shorteand o dólar e bebendo vinhos *Premier Cru* de Bordeaux de graça para o resto da vida”;





👏👏👏